nota Uma mãe, uma filha, um alienígena.

Com o Natal chegando e a super aguardada estreia de Star Wars Episódio VII – O Despertar da Força, os shoppings da cidade estão simplesmente abarrotados de gente.

É fila no estacionamento para parar o carro, fila para pagar as compras dentro das lojas, filas nas praças de alimentação e filas quilométricas nos cinemas.

Ao observar a fila para a compra dos ingressos no sábado (último antes do Natal) reparei na alegria de um pai dizendo ao filho que iriam assistir o melhor filme de toda a sua vida e na carinha não tão empolgada assim da criança e me lembrei da minha primeira experiência no cinema com a minha mãe.

Ah, as mães. Seres desprovidos de sentimentos negativos e transbordantes de carinho, preocupação e sabedoria. Senhoras cuja missão celestial é carregar bebês por nove meses, pari-los e depois fazê-los apreciar brócolis com espinafre na marra. Convenhamos: com exceção da parte dos vegetais, mãe não é nada disso. Pelo menos a minha não é.

Aprendi que nem sempre mamãe sabia das coisas em uma fatídica tarde, de um fatídico dia, do fatídico ano de 1982 – desculpe-me pela ênfase no adjetivo fatídico, mas foi ali que começou todo o pavor que viria assombrar uma infância inteira. Trata-se do momento e que fui arrastada ao cinema para ver o filme E.T. – O Extraterrestre.

Hoje eu carrego o orgulho de ter assistido um dos maiores clássicos da história da sétima arte logo na estreia. Mas já não tenho os mesmo cinco anos de antigamente, é óbvio. Naquela época, a fábula do diretor Steven Spilberg sobre o monstrinho esquecido pelos companheiros no inóspito planeta Terra me aterrorizou do começo ao fim.

Eu dou um desconto à minha mãe: ela só queria me proporcionar momentos de magia e diversão. Todas as amigas já haviam levado os filhinhos e recomendaram o agradável programa familiar veementemente. Mal sabia mamãe que eu não era como a maioria das outras crianças, e que teria preferido um passeio no parquinho do inferno de Dante a olhar para a tela da sala de projeção.

A partir da cena em que a nave espacial decola e E.T., abandonado, começa a correr feito barata tonta pela floresta escura, fechei os olhos. Agarrei o pescoço da minha acompanhante e lá fiquei, petrificada de tal forma que nem conseguia sussurrar: “mamãe, me tira daqui”. Ela achou que eu estava sofrendo junto ao bichinho. Não, eu estava sofrendo por causa dele.

Analisando a produção, não é difícil ver que o alienígena era na verdade um anão assustador. Seu corpo enrugado e asqueroso, seu pescoço retrátil e sua voz de velha com cirrose não compunham a visão mais bonitinha para uma garota da minha idade. Isso, somado às cenas sombrias e aos gritos dos personagens na maior parte do filme, só poderia resultar em uma coisa pra mim: terror puro. Que Freddy Krueger, o quê!

Chegando em casa não consegui dormir naquela noite. Nem na próxima. Nem na seguinte. Qualquer barulhinho no quarto, pronto, era o E. T. chegando. Foi um pesadelo que durou tempo demais. Minha mãe, ciente do estrago que tinha feito e que poderia custar anos de análise para a filha, decidiu, do alto da sua sapiência, presentear-me com o boneco do personagem para eu ficar “familiarizada” com ele.

Outro erro. Se antes eu tinha medo de que o E. T. entrasse no quarto, bem, agora ele estava no quarto. Só lembro de escondê-lo no meio dos cobertores e de rezar para ele não sair de lá e aprontar comigo de madrugada. Ora, se ele apareceu para o Elliot, por que não apareceria para mim?

A saga do maior medo infantil que enfrentei na vida acabou em 2002, quando a produção completou 20 anos e reestreou nos cinemas. Algo aconteceu e meu coração amoleceu – aceitei o anão enrugado e me compadeci de sua luta. Chorei (dessa vez de pena) e vibrei com a célebre cena da bicicleta voadora. Ainda bem que a gente evolui, de certa forma. E que o E. T. conseguiu voltar para o planeta dele e não pode mais me atacar.

Espero que a criança na fila do cinema não fique com medo do Mestre Yoda…

Fonte: Garotas que dizem ni – É impossível ler um só.

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